quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Amor de Ícaro
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Para ele que, de anjo, não tem nem as asas.

ela o chama de "meu bem".
E era pra ser só no feriado. Mas ainda estão.
Ela me conta, meio cantando meio sorrindo,
que ele não é tudo, mas é tanto!...
E não a enjoa.
Nem o gosto de cigarro,
nem o cheiro leve do passado,
nem a barba que arranha,
nem o cabelo enrolado.
Nem o jeito de falar arrastado,
nem a tristeza estranha,
nem a voz mansa,
nem se ressona quando é acalentado.
Nada nele lhe cansa.
Até a melancolia dele parece sorriso
e ela gosta de carregar no rosto.
E ela não palpita até quando vai durar.
Até que eles não possam mais com tanto peso,
tanto sentimento, tanto medo?
Ela não arrisca dizer datas. Nem ele.
Dizem que é pra ser até quando não for mais.
Esse texto foi um presente, mas não sei se ela vai querer os devidos créditos. Essa é minha forma de dizer obrigado.
E de anjo realmente, não tenho nem as asas...
Perdoe-me por isso.
Beijo em ti.
Saudade,
Raphael
terça-feira, 16 de novembro de 2010
...
O mais difícil em toda essa história
Foi disfarçar os sentimentos que se escondem
no fundo dos olhos.
Escondi.
E chorei pelo medo que senti.
O medo de me findar
numa dessas tardes chuvosas,
Tardes perdidas em meio a pensamentos e cigarros.
Enquanto tu me esqueces.
Enquanto eu me firo.
Enquanto com um olhar, por inteira,
ainda te devoro.
Enquanto tento malditamente disfarçar
esses sentimentos que se escondem
no fundo dos meus olhos.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
...
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Quando não consigo, ele fala por mim...
Caio F.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Hoje não
Estou bem.
Sinto-me.
Ainda vivo.
Todos os dias têm sido assim.
Acordo, olho no espelho e
Falo àquele reflexo
com os cabelos desarrumados e olhos tristes:
- Calma, ainda não vai ser hoje que eu vou te matar!
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Vezenquando...
sábado, 23 de outubro de 2010
Nossas noites
o cobertor protege, o abraço esquenta.
Eles falam sobre memórias perdidas,
passado solitário e sorriem lembrando sua música.
A casa em total silêncio ajuda.
Depois da conversa, o carinho, o afago,
o abraço que se transforma em beijo,
e depois volta a ser abraço até o momento de um outro beijo.
Se pudessem ver o que o outro sonha ao seu lado,
veriam facilmente o que realmente são:
Ele, textos. Ela, fotografias.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Perdão, mas a alegria não me inspira
Você sabe como é ter todas suas convicções abaladas, reviradas, postas de cabeça pra baixo? Perceber que a dúvida é a única certeza que restou? Eu estava bem, meu bem. Estava conformado com minha infelicidade, com minha autêntica decadência, com meu talento pra loucura, por não saber o quem ou o que sou, e não dar a mínima para isso. Estava bem, querida. Esperando minha madrugada final, com esperança no peito de ver esse mundo acabar. De bar em bar, com cigarros e uísques baratos. Vezenquando, ouvia brotar de dentro de mim um grito desesperado. Mas nunca quis me resgatar.
Querida, então você aparece e tenta me arrancar essa dor, a minha dor, tão minha que quando não dói, não sou eu. E assim me vejo, outro, um eu bom, um eu tão doce que eu jamais pensaria ser. Tentando ter dias leves, aproveitando essa brisa fresca, pensando em como gosto do seu sorriso, como gosto de me "abandonar folgadamente nos teus braços". De como você me faz voar, me faz ter vontade de me libertar desse casulo escuro, insalubre e triste. Como quero me libertar meu bem, mas eu não consigo. Não é que eu não queira. Odeio a incerteza do amor. A solidão é meu vício e minha certeza.
Meu bem, hoje meu sorriso é sincero.
Mas no fim esse casulo vai me sufocar.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
...
Meus vôos foram longos e solitários,
como uma fênix eu continuo a voar com minhas asas de fogo
e meus olhos cheios de mágoa.
O que você me propõe é um descanso?
Mas lhe aviso logo: Menina, eu nasci pros céus!
E se você tem as asas frágeis como de Ícaro, não abandone Creta.
Basta um vôo curto até o meu abraço para se libertar do chão!
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Caminhos
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
terça-feira, 14 de setembro de 2010
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Meu fim.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Noites
Caminho sem direção.
Sob este manto noturno.
Caminho por caminhar.
Caminho para puramente não endurecer como as cidades.
Carrego nas mãos, apenas um cigarro e uma garrafa de vodka enrustida,
Porque hoje sou incapaz de sentir qualquer coisa, nessa madrugada fria.
sábado, 28 de agosto de 2010
Dirty Little Thing
Hoje descobri mais uma de tuas mentiras. O que eu podia esperar de ti?
Um verme com ares de rainha, ovelha na pele de cordeiro, o que eu poderia esperar de ti?
Não carrego mágoa, nunca quis isso. Muito menos ódio ou amor. Não carrego nada em meu coração que se assemelhe a saudade ou qualquer outra coisa que lembre de ti. Apenas um pernoite no quarto de hotel, um jogo de bilhar, um carteado, uma reles distração passageira. Efêmero como o prazer de um cigarro que apagamos e jogamos fora, como um drink de uísque antes de dormir, mas não um vício. Apenas mais um cigarro solvido e esquecido; descartado e jogado num buraco qualquer. Buraco este que não deverias ter saído. Buraco de esgoto para onde deves voltar.
Divertimos-nos isso é verdade. Matamos nosso tédio. Mas tudo acaba, e lá veio o fastio nos atassalhar de novo. Talvez eu tenha gratidão pelo que aprendi contigo. Ensinaste que devo manter distância de pessoas iguais a ti. Pessoas que têm um brilho no olhar, olhos cheios de paixão e almas podres e dormentes.
Quero te agradecer por todo esse tempo que permaneceu ao meu lado. Não deve ser nada fácil fingir amar alguém. Eu nunca conseguiria. Talvez não por falta de talento. Mas por pudor. Quero que sejas feliz de verdade. Talvez um dia aprenda o significado destas palavras, felicidade e verdade. Mas por favor, cuidado para não ferir os outros, existem pessoas que podem não gostar. É perigoso fazer malabarismo com corações. Eu por exemplo só tenho um, aquele mesmo, que por tantas vezes deixaste cair no chão. Aquele mesmo, que adoravas brincar. Aquele mesmo que te entreguei embrulhado para presente, e que tu trocaste, pois não te servia.
Hoje descobri mais uma de tuas mentiras. Quantas cartas mais tens escondidas na manga? Para ti isso nunca passou de um simples jogo. Ganharia que permanecesse de pé. E eu nunca caí.
Desculpa por escrever pra ti. Mas garanto que a partir de agora vou perder meu tempo com coisas mais úteis. Termino por aqui.
Ahh, antes que eu esqueça:
- Obrigado pelo sexo e pelo teu suor. Mas confesso sinceramente, que eu posso dar a qualquer uma, aquele teu prazer!
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Manuel Bandeira
Arte de Amar
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Ayahuasca
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Os Improváveis

Talvez ele a ame. Talvez ela quisesse saber disso. Por causa da mudez das emoções que sentiam, eles não sabiam que destinos davam a si.
O bonito deles é a coisa mais simples em suas histórias: de alguma forma silenciosa e cheia de esperança, eles esperavam um pelo outro, embora nenhum pedido tenha sido feito."
(Cáh Morandi)
Nada que o leste ou oeste tratasse de unir. Ela é pura magia, e eu sei disso...
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Proibida a entrada de ilusões!

Vi estrelas na infinita escuridão do céu.
Vi dias alegres de sol, em plenas noites tristes de inverno.
Sentia tua boca me beijar a cada comprimido que engoli durante a madrugada.
Ouvi uma oração nas suas blasfêmias.
Senti paz durante toda aquela tempestade.
Vi luz na frieza dos teus olhos.
Vi beleza no teu sorriso que me iludia.
Senti a ternura do teu abraço daninho.
Senti a doçura de um sonho enquanto a realidade me apunhalava.
Vi o amor onde não existia nada.
Meu amor, pela última vez entenda, não é sua culpa a minha projeção.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Às vezes sinto falta da ilha.
Às vezes penso em abandonar tudo, e voltar pra mim.
Voltar para o velho apartamento,
Rever as tardes morrerem, com o Ron enterrado na areia.
Mas dessa vez eu iria gritar mais alto,
Correria e roubaria o tesouro das mãos dos piratas loucos.
Não deixaria derrubarem nenhuma gota do meu sangue.
E decretaria ao mundo que eu sou o deus de mim.
Por Deus, essa maldita esperança de reviver, deixou meu coração cansado.
Tão cansado quanto aquelas noites que por milagre consegui sobreviver.
Queria que você pudesse ver meus olhos sangrarem após lutar contra mim mesmo.
Agora não resta nada além do vazio e o cansaço.
O cansaço que me permitiu segurar o revólver.
Por alguns instantes quis poder fechar os olhos e não pensar.
terça-feira, 22 de junho de 2010
A madeira e a escultora
Eu nunca vi de fato a luz dos olhos dela.
Não sei ao certo quando aquilo começou, porque quando a conheci, ela já tinha aquela estranha magia no olhar. Mas claro, isso teve um início, apesar de ninguém saber ao certo quando essa estranha magia invadiu os olhos dela.
Acredito que foi algo plantado ao acaso, assim como uma pequena e imperceptível semente que cai numa terra fértil e acolhedora. Sementes como essas que o vento leva consigo, que os pássaros carregam e semeiam pelo seu caminho. Sementes que germinam todos os dias, invisíveis até rachar o chão à procura da luz.
Assim como uma semente, ao acaso, a estranha magia deve ter encontrado seu rosto.Talvez germinado na pontinha do seu sorriso, fazendo brotar um sorriso mais aberto, mais radiante, sem a tristeza e torpor de antes. Começou devagar, assim como os primeiros passos de uma criança, como a mesma doçura e inocência. E devagarzinho foi escondendo os traços fundos do seu rosto, foi criando um caminho pela sua pele, fazendo florescer uma nova fisionomia, todos os dias.
Foi assim que a conheci. A estranha magia já tinha tingido seus olhos, e eles brilhavam radiantes e como brilhavam meu Deus. O seu sorriso me encantava e sem ao menos perceber ela meu roubava um sorriso suave e meio bobo. Era doce tê-la ao meu lado.
Devo confessar que a estranha magia com seu imenso brilho, me cegaram, assim como estava prestes a cegá-la.
Não conseguia mais passar um dia sem olhar naqueles olhos lindos, pungentes, que sempre pareciam me compreender e me abrigar da solidão. Fiquei cego a ponto de não perceber que mergulhei naquela estranha magia dos seus olhos com toda minha alma, me envolvi por inteiro pelo desejo de preencher o meu vazio, sem perceber que quanto mais fundo penetrava, mais me exilava do mundo e de mim. Sucumbi à suas caricias, às suas palavras e aos seus sorrisos. Entreguei-me totalmente a ela. E me perdi. Assim como ela estava prestes a se perder. As sutis mudanças redesenharam seu rosto no decorrer dos dias, das semanas, meses e anos. Ela já era incapaz de se reconhecer.
Como uma semente bem cultivada, que fora regada todos os dias, com longos banhos de sol a estranha magia cresceu, como um estranho parasita cravou fundo as raízes no seu rosto, e a tomando como um beijo inóspito foi apodrecendo seus sonhos mais íntimos, ensandecendo sua mente e devolvendo a tristeza e torpor de antes. Mas agora, toda dor se escondia atrás daquela planta parasita, que como uma máscara, ela talhou todos os dias aquele novo rosto, aquela nova vida. Dia após dias ela talhou seus sorrisos com mentiras, regou a pequena semente com falsidade, matou seus sonhos por saber que atrás daquela fachada seu rosto apodrecia.
Quanto a mim?
A estranha magia, também se alimentou dos meus sonhos, foi os consumindo um a um, consumiu minha alegria, meus sorrisos, minha esperança, minha paz, e não parou enquanto podia tirar algo de mim. Consumiu minhas angustias, meu desespero, minha tristeza e minha dor. Por isso quanto a mim, não sei.
Tudo que desejo é assistir o inevitável fim de um lugar seguro. Assim, daqui posso ver a estranha magia derrubá-la ao chão miserável da dor e desprezo de si mesma, e consumir seu ultimo suspiro. Isso mesmo, a estranha magia agora a sufoca, e ela implora por ar. Ela foi reduzida a menor das necessidades humanas. A máscara que ela esculpiu com as próprias mãos dia após dia, agora a roubava o direito de respirar. Como um verme ela implorava pela vida, mas sem abdicar às mentiras e aos disfarces.
Agora eu sinto algo novo em mim. Um desejo que não sei explicar o quê é.
Mas não me importa, me calo e entendo: o que eu mais quero é acender um cigarro e vê-la morrer.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Decisão
quero apenas um instante de lucidez.
ou não.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Abismal

Pra esconder as minhas mágoas.
Caminho com os pés a beira de um abismo
E uma alma destroçada.
Quando não se quer mais essa estrada.
É triste quando queremos tudo,
E só temos o nada...
Que eu tenha que enfrentar,
Por ficar preso dentro de mim
Mesmo querendo voar
Sou igual a qualquer pessoa,
Só não sei como te explicar
Que eu preciso ser feliz,
Em qualquer outro lugar.
Há algo mais que só um abismo,
Só há uma alma destroçada!
Canção escrita numa tarde nublada de 2004, para a banda Alta Voltagem.
Clichê como tudo naquela época.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Prelúdio Suicida
"Isso é uma revelação. Inútil talvez, ou não.
Vou publicar apenas por embriaguez."
Todos riam à mesa. Era quarta-feira, e todos riam freneticamente naquela mesa do Mangueira's Bar. Falavam bobagens, acompanhadas da cerveja mais barata daquele bar, da luxuria do mundo, das indecências do passado de cada um, e dos desejos estampados no olhar atirado a mesa ao lado. Estavam todos felizes e embriagados. Abençoados por Baco, Brahma, Vishnu, Shiva, Buda, Cristo ou Allah era o que menos importava. O que importava era a santa loucura que os tornava tão felizes. Ou pelo menos aparentemente felizes.
Todos riam à mesa. Quem via todos aqueles risos e gargalhadas nunca imaginaria que ali existia alguém que sofria com cada sorriso que fingia. Ele fingia não por falsidade. Fingia para não ser diferente, fingia para assim tentar ser um feliz como seus amigos a mesa.
André Zenh era seu nome.
19 anos, 1,8 m, e chamava atenção pelos cabelos negros e cacheados; sobrancelhas grossas, a barba sempre por fazer. Seus olhos eram uma incógnita, hora mostravam uma certa melancolia, hora uma certa malícia. Todos diziam que quando ele olhava uma garota nos olhos e sorria, nenhuma delas resistia. Ele realmente tinha uma algo intrigante e encantador. Mas não sincero.
Seu sorriso escondia sua alma uma fria, distante e dormente. Escondia a solidão que sempre o acompanhara mesmos entre tantos amigos como naquela noite no bar. Quando sorria, sorria pra enganar a dor. Mas esta sim, era muito sábia, e não se enganava com um efêmero sorriso. Ela sempre esteve com ele, por isso este a amava. Ele amava aquela dor e a solidão, por elas nunca o abandonara.
Todos levantavam e se despediam. O bar estava fechando.
André tinha caminhando de sua casa até o bar, deixou o carro, celular, chaves, documentos. Só levou consigo, alguns trocados para cervejas, uma carteira de cigarros, um isqueiro e um livro de livro.
Despediu-se de todos, acendeu um cigarro e saiu caminho pelo parque da cidade, em direção a casa. Não conseguia caminhar em linha reta depois de tanta bebida. Mas seus passos eram leves, a aguardente da saidera soou como libertadora.
Sua vida realmente mudou após a descoberta do álcool. Às vezes ele mesmo acreditava ser feliz quando estava ébrio. Mas a embriaguês sempre passava, e sobrava a companhia de todos aqueles fantasmas tristes que insistiam em acompanhá-lo.
Sua alma estava morta!
André sabia muito bem disso, já não fazia mais nenhum sentido acordar, dormir, sorrir, cumprimentar, cumprir, admitir, fingir... fugir...
Seu corpo vivia, mas a alma estava sendo devora por seus primeiros vermes. O dor não cessava, não cabia mais em um milhão de gritos, a solidão o abraçava e o consumia como o fogo consome o carvão.
Não cessava, nada cessava!! O vazio sempre vem doendo e sangrando cada partícula do espírito que geme de agonia.
André caminhou aproximadamente um quilômetro, mas os pensamentos não o deixam em paz. Caiam as primeiras gotas de chuva, mas alguns minutos aquilo seria uma tempestade.
André sai correndo, não vai mais pra casa. Sai correndo em direção à passarela sobre o rio que passava pela cidade. André sai correndo, a chuva vai aumentando sua força se unindo ao vento. Continua correndo, o cigarro apagou nos primeiros segundos da chuva, e ele continua correndo, continua tentando fugir dos seus medos, fugindo das lembranças tristes, fugindo da indiferença do mundo, da hipocrisia que reinava na multidão.
Naquela madrugada chuvosa, embriagada e deprimente, André Zenh fugia dele mesmo.
Chega à beira do rio, abre o livro até então não lido no seguinte trecho:
"Stephen Dedalus é o meu nome,
Irlanda é o meu país.
Em Clongowes tenho a minha residência,
Mas só no céu espero ser feliz."
(Anotação do caderno de Stephen Dedalus)
Stephen Dedalus, André Zenh, aquele chuva na madrugada, aquela solidão, aquela tristeza, aquela dor!
Tudo na sua mente se encaixa, aquela chuva não era por acaso, as lembranças, os pensamentos... nada por acaso, André já estava morto!! Só faltava matar seu corpo, pois sua alma já não estava ali...
Ele corre com toda sua energia, naquela madrugada, com sua solidão, tristeza e dor, André continua a correr, as lagrimas se misturam as gotas de chuva, e ele chega correndo à passarela.
Ele nunca pensou que aquela seria sua ultima noite sorrindo a uma mesa de bar, que aquele seria seu último Carlton Red.
André não sabia quem era Stephen Dedalus, talvez apenas um personagem encerrado nas páginas despedaçadas de um livro não lido. Mas teve certeza que ele estava certo. André queria os céus!
André decretou que aquela noite seria seu último inferno e num ato de coragem e libertação pulou o sobre o parapeito e se atirou às águas barrentas daquele rio.
Todos riam à mesa. Era quinta-feira, e todos riam freneticamente naquela mesa do Mangueira's Bar.
André afogou alma nas lágrimas, e seu corpo no rio às quatro da manhã.
segunda-feira, 14 de junho de 2010
sexta-feira, 11 de junho de 2010
A Última Vez Que Vi André Zenh
A última vez que vi André, foi na ceará nº 1444, com um olhar ensandecido e um sorriso malicioso, levantou o chapéu e abaixou levemente a cabeça dizendo:
"-Amanhã será mais um dia de café escuro."
Saiu num passo calmo, sob aquela chuva rala, fumando o que seria seu último cigarro.
"Todos têm seus dias de café escuro", ele me disse na primeira vez que nos encontramos naquele mesmo bar, do qual saia na última vez que o vi, em uma noite como aquela.
André era um romântico, sem fé no amor ou na vida. Costumava falar sempre que a vida era uma grande espera para o nada. Era um romântico, que não sabia como tinha perdido sua fé. Pude ver isso mais uma vez, na ultima vez que o vi. Vi pela última vez aquele leve desespero que sempre carregava no olhar, o desespero de quem não sabia aonde ir. O desespero de saber que a esperança não passava de uma linda mentira.
"Por que não conseguiste se reerguer, baby?"
Penso sempre nele, embora não o veja mais. Embora aquela tenha sido a ultima vez que o vi, nunca me esquecerei das noites em que eu tinha aquele mesmo desespero, aquela mesma tristeza, a mesma desesperança, a mesma vontade de morrer, e ele estava comigo, com seu sorriso e os olhos apertados, e seu abraço sincero. Ele não acreditou, mas seu amor me ergueu varias vezes, deu-me esperança. Esperança que ele mesmo nunca teve.
Ele me deu a paz que nunca possuíra. O amor no qual nunca acreditou. André acabou sufocado pelo próprio casulo.
Por isso quando eu vejo as águas desse rio, sob essa chuva rala, entendo que ele não aguentaria outro dia de café escuro, não aguentaria. Todos os bons sonhadores atravessam este caminho algum dia, mas ele já carregava túmulos nos olhos.
Não quero sentir medo.
Quero a coragem para dar o próximo passo. Ousadia para subir no parapeito da ponte e ver a extensão das águas, sentir o vento frio me desequilibrar, respirar profundamente e ficar longe de mim mesma por infinitos segundos, abrir os braços e saltar. Sentir o meu corpo se distanciar da ponte, sentir o coração acelerar, as ultimas lágrimas se perderem no vento, o corpo encontrar a força das águas inundando meu corpo. Para então sentir apenas serenidade de quem está prestes a se libertar.
"Não quero dias de cafés escuros.
Quero coragem,
assim como tiveste,
na última vez que te vi."
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Eu só...
Eu só queria ter podido contar com o seu abraço, ter encostado no seu colo
por cinco minutos para me acalmar...
Eu tive os seus abraços enquanto dormíamos enlaçados e parecia que nada
nunca ia nos separar. Eu tive a sua companhia nos dias de sol, nas noites de
lua cheia, nos momentos suaves, nas horas intermináveis de felicidade. Eu
estava lá com você em todos esses momentos e também nos dias escuros e
nublados e nos momentos sombrios. Eu estive ao seu lado quando você sentiu
medo, quando precisou de cuidado, de compreensão, de amor...
Quantas vezes eu te via dormindo e achava lindo. Você não sabe quantas
noites eu te dei de presente, quantas vezes acordei para te ver dormir,
quantas vezes zelei teu sono, quantas vezes te cuidei sem você perceber.
Eu estava iluminado e você estava sempre por perto, e foi quando uma brisa
gelada apagou a minha luz e eu esperei ansioso para que você chegasse, me
aquecesse e me iluminasse, que você se transformou em neve, e então o frio
se tornou insuportável. Você nunca apareceu, nunca entrou pela porta que eu
havia deixado aberta...
Bastou a vida me apagar por um breve instante para separar nós dois.
Eu só queria ter te dado as mãos para não ter me sentido sozinho, queria que
você as tivesse segurado quando estavam suadas e geladas de tanta dor,
queria que você tivesse me abraçado quando eu mais senti frio, queria que
você tivesse me beijado na testa para ter sentido o seu carinho, queria que
tivesse deixado eu me esconder na sua casa quando senti medo da solidão, que
tivesse deixado eu me encolher no seu colo quando eu senti medo da vida, que
tivesse me protegido do frio cortante enquanto o meu corpo todo tremia.
Eu só queria ter sentido o seu cheiro para ter certeza de que estava por
perto, ter ouvido sua voz me dizendo que não havia motivos para eu ter medo,
que tudo daria certo, e que mesmo se não desse, ficaria tudo bem, porque, de
qualquer jeito, você estaria comigo. Eu queria ter podido te olhar para você
ter me decifrado sem precisar falar, queria que você tivesse me tocado para
tranquilizar o meu coração, eu queria tanto ter chorado por horas afio no
seu ombro para me sentir preparado para a vida novamente, queria que você
tivesse secado as minhas lágrimas quando chegasse a hora de parar de
chorar...
Eu queria que a sua presença tivesse confortado o meu coração e que o seu
silêncio tivesse falado à minha alma, e no lugar disso, a sua ausência me
deixou um vazio, e as suas palavras deixaram o meu coração já partido em
pedacinhos... que agora só o tempo e a vida se encarregarão de juntar.
Eu só queria ter tido você nos dias escuros e nublados também.
Texto muito antigo, para uma dor que se renova...
Guardado numa gaveta, que tenho certeza que o melhor é não revirá-la...
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Um anjo puro malte...
Quem diria que numa noite como aquela, eu iria sentar ao lado de um anjo?
Ele pediu o mesmo que eu, um uísque puro é claro.
Ele não tinha asas; parecia conosco, mas sem o peso que carregamos...
Nunca pude imaginar essas lindas criaturas a beber... Nossos eternos guardiões...
Perguntei-me, por que os anjos bebem?
Acredito que pela nossa sorte precária, pelas nossas renúncias, pelos nossos medos.
Os anjos bebem pela nossa arrogância, nosso orgulho, nossos minutos frágeis destinados ao pó.
" A esses pobres homens." "À morte que os espera." "À esperança que os ilude." São brindes dos anjos. Só o uísque acalma as dores. Os anjos sofrem...
Quanta solidão pode caber no uísque de um anjo, ninguém jamais saberá!
Levarei eternamente na memória meu encontro com o anjo, numa daquelas noites boêmias.
Não me assustei, nem perguntei tolices sobre o Céu ou Inferno. Apenas calei até o momento de convidá-lo para uma bebida. Bebemos como se fossemos velhos conhecidos. Não perguntei sequer o nome dele, mas falei sobre as dores que trazia na alma. Chorei. Depois toquei o ombro do anjo e disse: " Boa noite".
Eu estava bêbado, ele não.
Ele Desapareceu tal qual a poeira de um sonho.
Eu voltei pra casa naquela noite com a paz...